Contos

Na Pista

Por trás da persiana ela olhava para fora do quarto. A luz do Sol fazia com que enxergasse tudo envolto em uma espécie de névoa. Uma aura luminosa que lhe ofuscava os olhos tanto ou mais do que a desprevenida mente.

Era Carlos quem vinha em direção à porta. Ajeitava a camisa florida por dentro do elástico da bermuda que lhe deixava os machucados dos joelhos à mostra. Quando entrou, ela reparou nas casquinhas que agora cobriam os ferimentos do rapaz, dando um tom ameno ao que poderia ter sido muito pior…

Lembrou-se do namorado rodopiando no meio da pista, com as costas tangendo o solo em um efeito idêntico ao de um pião. Tinha sido muito engraçado… Só mesmo ele para arriscar passos de hip-hop, toscos, em pleno baile de carnaval, ao som de uma antiga marchinha que se negara a perder-se no passado, da mesma forma que aquela leda lembrança…

Ela ainda se culpava pelo acidente, mesmo tendo sido um descuido de Carlos o que acabara ocasionando a queda dos dois. Se bem que fora ela quem pedira para o namorado mudar de faixa… Ele, como sempre o fazia, apenas quis brincar com sua amada, trocando de lado na pista, embora sabendo que ela havia se referido à faixa da música que escutava no discman, e não a da estrada, na volta do baile.

Sem volta…

Ela estava na garupa e, mesmo sem capacete, não sentira a batida com a cabeça no asfalto, parecendo não ter sofrido sequer um arranhão. Contudo, ao ver agora o estado em que a moto ficara, colocada sobre a caçamba de uma picape da polícia rodoviária, estacionada ali do lado de fora do quarto, ela percebia a sorte que também Carlos, exibindo apenas algumas pequenas escoriações, tivera.

A moto estava totalmente destruída…

Aqueles machucados eram como um lembrete; notas de rodapé em uma página… Neste caso, notas de joelho. Nos joelhos dele. Como que a lembrá-los do que poderia ter sido tudo aquilo. Um texto autoexplicativo…

Mas era Carlos quem gostava de procurar a explicação de tudo nos fatos. Costumava dizer que toda e qualquer pergunta já detinha, invariavelmente, a resposta dentro dela mesma. Afirmava para quem quisesse ouvir, sempre em alto e bom som, que todo fato provinha da consequência de um ato, que por sua vez era oriundo de um pensamento, que era, basicamente, produto de um desejo. E tudo estaria à mostra, disponível…

Embora não evidente.

Assim ia Carlos discorrendo sobre o que quer que fosse que, à primeira vista, se demonstrasse enigmaticamente obscuro. Gostava de solucionar problemas, descobrir coisas, mudar os paradigmas… Contudo, ela sabia que, na verdade, Carlos tinha mesmo era uma “alma de caçador”. Ele era um ávido — e incansável! — caçador de respostas.

Talvez fosse isso a passar pela cabeça dele agora. Carlos estava quieto demais; quase tenso… Quem sabe até um pouco fora da realidade, tentando explicar o inexplicável, exprimir o inexprimível, encontrar o detalhe faltante… Enquanto ela perdia-se em pensamentos não tão distantes, como a quilometragem existente entre aquele quarto de hotel de quinta e os cacos de vidro que ficaram sobre o asfalto quente da pista.

Quente e acolhedor…

E novamente o brilho invade seu semblante, como um farol a delatar uma longínqua e até então despercebida embarcação. Ofuscando agora até as lembranças através da luz que aqueles pequeninos cacos espalhados no revolto mar de sua confusa mente refletiam.

Purpurinas do baile de carnaval… Batuques ferindo gravemente o couro dos tambores, joelhos… Serpentinas vibrantes… Cor de sangue. Agora tudo misturado e exposto; espalhado por aquela estrada. Migalhas de vidro na pista… Brilho esmigalhado. Os reflexos…

O Silêncio.

Somente então repara: não havia som naquele quarto. Nem mesmo barulho vindo do lado de fora. Só o silêncio… O momento a silenciar o que o vento, sem ciência do fato, sentenciava. As árvores balançando lá fora num vai evem confuso e melancólico…

Tudo melancolicamente mudo.

Carlos puxa do bolso de sua bermuda o que sobrara do aparelho que, com a outra parte ainda a repousar no pescoço dela, completar-se-ia. Esmigalhara-se por fora… Mas, os fones que pendiam das pontas do metálico arco e tocavam a jugular da namorada, agora aumentando gradativamente a pressão naquela área, não detinham sequer um arranhão. Estavam intactos, assim como ela.

Intacta…

Intacta e aflita. Ela fita as mãos de Carlos que, após livrar-se dos restos do aparelho, segurava agora, entre cortes, arranhões e manchas de sangue, apenas o CD com os enredos das escolas de samba deste ano, comprado já na saída do baile, após muita insistência por parte dela. Ele não queria comprar. Ele não devia…

Fato.

Carlos chora. Copiosamente. Deixa-se cair por sobre os restos do discman que são então prensados entre a colcha encardida daquela cama de hotel de beira de estrada e o machucado corpo que sobre a mesma tombara, derrotado. Corpo… E alma.

Carlos estava estranho…

Não trocara uma só palavra com ela desde que ali chegara. Como se nem a tivesse visto. Como se ela não existisse; como se ele não estivesse ali. Agia friamente. Talvez a culpasse pelo acidente; talvez culpasse a si mesmo… Mas não houvera nenhuma acusação; nenhum carinho…

Nada.

Tinham as suas diferenças. Ela gostava de samba; ele de música eletrônica. Ela falava em aprender a tocar violão; ele queria comprar uma mesa de som. Um gostava de correr no calçadão; a outra se esforçava em caminhar dia sim, dois não. Ele adorava a chuva; ela desafiava o sol. Mocidade porque estava bonita na televisão; Mangueira de berço e coração… Leite quente versus leite frio; um no Engov a outra no Doril…

Ela não era de beber. Na verdade, não gostava mesmo era de cerveja. Mas, naquele baile, haviam realmente caprichado… Parecia até que os organizadores tinham feito uma pesquisa pré-carnaval, como se tivesse sido possível descobrir, já no ato da compra dos ingressos, a preferência etílica de cada comprador. Tipo um elo mental mesmo, que fosse direto ao ponto do cérebro capaz de revelar, instantaneamente, a preferência por esta ou aquela bebida.

Sim… Havia uma mesa enorme e absurdamente apinhada de copos transbordantes no baile, repletos de uma verdadeira e irresistível tentação. Uma mesa que era constantemente renovada… Que ressurgia, a cada olhadela, impávida e convidativa. Um a um, os copos vazios colocados sobre ela eram, todos, substituídos por outros, cheios. E, por mais que tentassem, eles não conseguiam dar conta… O nome da tentação?

Cuba Libre.

Uma marchinha antiga pra lá, um samba-enredo famoso pra cá, e lá iam eles para a pecaminosa mesa. Carlos, é verdade, nem era assim tão vidrado na perfeita mistura de rum, coca-cola e limão, mas fizera questão de acompanhar, durante toda aquela noite, a namorada em sua rara expedição alcoólica.

Já ela… Era fã mesmo. Profunda conhecedora e admiradora. Gostava tanto que até a história desse drinque ela fazia questão de difundir, lembrando a todos que a invenção do mesmo era atribuída aos soldados norte-americanos que ajudaram nas guerras da independência cubana — daí o nome — e que, muito provavelmente, inspiraram-se no calor dos campos de batalha para a criação da explosiva bebida.

Porém, o calor que ela sentia agora não se devia mais ao efeito da bebida ingerida em demasia naquele baile. Nem da animação das marchinhas ou do rebolar frenético das mulheres no meio da pista lotada…

Tampouco vinha de fora daquele quarto de hotel de beira de estrada. Nem da claridade que agora ultrapassava as persianas e tomava conta de tudo à sua volta, misturando-se ao crescente batuque dos tamborins que voltava a ouvir através dos fones desplugados e que, cada vez mais, pressionavam seu pescoço…

Ela sentia o calor da estrada. Do asfalto quente e acolhedor. Das serpentinas vibrantes cor de sangue se abrindo naquela pista. Do repique metálico e do chamativo brilho dos pequeninos cacos de vidro, espalhados pela imensidão daquele cruzamento, que lhe invadiam a alma ao refletirem seus próprios olhos…

De dilatadas pupilas.

* * *


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