Contos

Digressão Perigosa

Ronaldo era uma pessoa bem distraída…

No entanto, já na saída do túnel, percebeu que havia algo errado. A pista adiante estava completamente vazia, assim como toda a travessia feita pelo interior do imenso vão que deixava para trás.

Fixou o olhar no retrovisor do carro.

Cada segundo passado sem avistar sinal de outro veículo, à frente ou atrás do seu, reconfirmava aquela primeira impressão, responsável pela crescente e involuntária força exercida em seus músculos temporais.

Ronaldo sentiu a vista adaptar-se à claridade do ensolarado dia e, já de posse da certeza de que alguma coisa estranha estava realmente acontecendo por ali, reduziu a marcha do veículo.

Ele só não sabia ainda o que era.

O incômodo vazio, atípico no trânsito de fim de tarde carioca, especialmente naquele ponto da cidade — que ligava a zona sul à uma via expressa —, levou Ronaldo a diminuir ainda mais a velocidade de seu carro; quase parando no meio da rua deserta.

Até que notou o brilho…

Trazendo ainda menos veracidade ao cenário apocalíptico no qual se encontrava, Ronaldo visualizou alguns vaga-lumes próximos ao asfalto, à frente do automóvel, como se desprovidos da informação sobre o horário local. Ou talvez confusos, devido à ausência do costumeiro fluxo de veículos…

Pirilampos diurnos.

Só então distinguiu um carro branco de reportagem, com a logo de uma emissora de TV estampada na lataria, parado mais adiante, à esquerda da pista. Aparentemente, gravavam alguma matéria, pois Ronaldo acompanhou a corrida de um homem, carregando uma câmera de filmagem, e uma mulher, muito bem vestida, com o que parecia ser um microfone na mão. Os únicos seres-vivos avistados por aquelas bandas, além dos estranhos vaga-lumes.

Seria uma reportagem sobre este bizarro fenômeno?

Na verdade, pareciam temerosos. Ambos, cinegrafista e repórter, pararam agachados ao lado do carro da emissora e, se realmente filmavam algo por ali, só poderia mesmo ser alguma coisa bem pequena sobre o asfalto.

Pequenina e perigosa.

O fato é que, ao aproximar-se mais da dupla, mantendo a baixa velocidade de seu veículo, Ronaldo pôde perceber a expressão de espanto que figurava nas feições dos dois, como se o casal sofresse um inesperado ataque por parte dos curiosos pirilampos que, em maior número agora, piscavam bem próximos da atônita dupla.

Contato visual estabelecido.

Ronaldo não conseguiu evitar o encanto recebido daquela repórter. Lindíssima. Os olhos azuis abertos ao máximo, fitando-o; revelando todos os seus segredos num instante de êxtase que parecia sem fim. Tudo em câmera lenta… O olhar fixado nele como se o desejasse mais do que a própria vida. Encarando-o sem empáfia; o hipnotizando de imediato.

Por completo.

Foi quando os dois veículos se emparelharam e, durante a eternidade que um único segundo pode conter, pela janela de seu carro, Ronaldo vislumbrou o quadro mais perfeito dentre todas as imagens que até então julgava conhecer.

Déjà vu.

Sentiu por inteiro o impacto daquele momento. Um insólito elo cuja ruptura, no instante seguinte, queimou-lhe por dentro, criando um mal-estar súbito que Ronaldo imediatamente tentou desfazer.

Inquietação…

Numa busca quase que animalesca, voltou os olhos para todos os retrovisores de seu carro, o de dentro e os de fora, procurando restabelecer o mágico contato que o fizera sentir-se a meio passo da perfeição.

Reencontrou o veículo branco pelo qual acabara de passar somente no espelho esquerdo; pequenino demais para permitir uma boa visualização daquela que fora a responsável pelo instante mais intenso de toda a sua vida. A magia daquele olhar…

Penetrante.

Profundamente alterado, Ronaldo tentou enquadrar o cândido automóvel no retrovisor central de seu carro — maior e menos indigno para aquele glorioso fim. Porém, na dolorosa busca pelo posicionamento ideal de seu corpo, que o permitisse avistar a agora já dona de sua sanidade física e mental, Ronaldo acabou deparando-se novamente com a enorme e negra boca de onde havia sido cuspido para aquele deserto.

O imenso vão.

Num calafrio, percebeu as diversas construções sobre a abismal galeria do túnel, reveladas somente então pelo espelho. Na verdade, casebres. Inúmeros. Sobrepostos; confusos. Tudo misturado e exposto. Pedaços de madeira, concreto, tijolos…

Favela.

E, do mesmo modo que antes, Ronaldo viu fulgurar, agora também dentro daquele pedaço de vidro refletor, o brilho tão característico aos supracitados insetos reluzentes. Uma verdadeira infestação de pirilampos que parecia querer tomar conta de todo o morro atrás do carro, acima da saída do túnel, repleto de pontos luminosos.

Flamejantes marcas destacavam-se na indigente paisagem sobre a meia-lua negra e soturna. Centelhas cintilantes invadiam ruelas e agrupavam-se de modo amorfo e insólito. Um endêmico ataque àquela comunidade menos favorecida. Uma epidemia de chispas na favela. Invasão insana; fulgente. Sobrenatural.

Luzes sobre a escuridão.

Guiou o carro apenas pelo instinto. Dirigiu dezenas de metros sem atentar-se para o que viesse adiante. Olhos vidrados no retrovisor central. Olhava para frente, mas pelo espelho lhe era revelado apenas o que ficara para trás…

Como se não houvesse mais futuro.

Com a razão extinta, à imagem e semelhança dos imperceptíveis cacos de vidro espalhados sobre o banco traseiro do carro, sem ainda conseguir juntar os pedaços daquele verdadeiro enigma, Ronaldo tombou sobre a direção.

Não sentia mais o peso do corpo.

Na verdade, não sentia mais nada. Nada além de saudade. Saudade daquele rosto, de feição misteriosamente angelical; de olhar reluzente e enigmático. Alaranjadas fagulhas em meio a uma imensidão azul. Ensandecidamente belos. A boca entreaberta e inverossímil, na eterna dúvida do movimento. Os lábios vermelhos. A mente divagando…

Sem som; sem tom; centrada.

O momento exato da ultrapassagem. Etéreo instante. O vento sutil a balançar os fios loiros sobre a perfeição da pele alva. A súplica daquele olhar derradeiro… Um toque sublime a percorrer toda sua espinha, num aguçado carinho… A unha feroz cravando-lhe a pele num afago algoz; a ferroada nas costas…

O delírio.

Ronaldo emergiu no interior daquele carro, já quase sem embalo. O som dos estampidos próximos e o calor de rubra intermitência foram seus últimos companheiros. Não viu a barreira de veículos perfilados mais à frente, nem as dezenas de oficiais fardados, fartamente armados, em irracional revide.

Ronaldo perdeu-se no frescor daquele rastro.

Dormiu ninado pelo tilintar metálico dos fuzis em meio ao nauseante hálito de pólvora que invadiu o automóvel, instantes antes de parar na reforçada lataria de uma das viaturas que bloqueavam o trânsito daquela importante e desolada via.

Uma verdadeira operação de guerra.

No noticiário da noite, figurou entre as vítimas fatais de mais aquele confronto urbano. Bala perdida. Uma jovem repórter relatou, emocionada, os momentos de perigo vividos por ela e seu companheiro de equipe. Ambos surpreendidos pelo intenso tiroteio ocorrido entre a polícia e os traficantes invasores que tentaram tomar posse dos pontos de venda de drogas daquela afamada favela.

No carro de Ronaldo foram encontrados — além das diversas perfurações de bala — pedaços de tela, pincéis, cavaletes de madeira, recipientes com tintas de inúmeras cores e uma pasta repleta de folhas de papel, contendo vários desenhos, de diferentes temáticas.

Alguns destes desenhos que estavam no interior do veículo da vítima foram mostrados na reportagem, de cunho extremamente emocional. Dentre os mesmos, destaque especial foi dado pela repórter, visivelmente estarrecida, a uma série de inacabados esboços, sobre os quais o falecido artista parecia estar trabalhando. Todos retratavam a figura de uma bela e imediatamente reconhecível jovem.

De lindos olhos azuis…

* * *


Brilho

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