Contos

Oito de copas

Ernesto suava sem parar diante da churrasqueira…

Estava com a turma da faculdade em uma espécie de confraternização de fim de período. O sítio do colega anfitrião ficava ao lado de uma enorme pedreira e, além do calor absorvido pela gigantesca montanha de pedra durante todo aquele dia, somado ao bafo oriundo das brasas sobre as quais eram assadas as carnes, havia ainda o abrasivo efeito da meia dúzia de caipirinhas que já tinha tomado.

Tudo isso, no final daquela típica tarde de verão, fazia Ernesto sentir-se realmente desconfortável. Mas, mesmo consciente de todas estas variantes, o rapaz sabia a verdadeira origem das infindáveis gotas que brotavam por toda a extensão de seu corpo; uma infinita nascente viva…

Ernesto tinha um pronunciamento a fazer.

Iria abandonar o curso de engenharia que já estava em reta final para, surpreendentemente, mudar de forma radical sua futura carreira. Ernesto queria graduar-se na área de humanas. Na verdade, já havia até feito a prova para ingressar na nova faculdade. Sentia uma incontrolável vontade de entender o comportamento das pessoas.

Psicologia…

E abriu para todos ali que a decisão tomada devia-se ao ocorrido naquele mesmo sítio; na mesma mesa de madeira que agora servia de base para os incrédulos olhares de seus amigos, que lhe fitavam num silêncio típico de quando se conhece a imutabilidade de um fato concreto.

Concretamente absortos.

Também fora ali, naquela mesa, após algumas latinhas sorvidas numa noite quente do verão passado, que Ernesto experimentara pela primeira vez a estranha sensação que tentava agora, um ano após, definir em palavras para seus amigos…

Onisciência.

Foi a única palavra encontrada. Assim como apenas um fora o número visualizado em sua mente; na forma de uma curiosa sombra a projetar-se sobre a fina parede de plástico que tinha à frente. Jogavam baralho naquela mesma mesa incrédula de agora, na qual outrora Ernesto, inacreditavelmente, concebera a imagem do número pintado do outro lado da carta.

Era um oito; escuro.

De paus ou espadas… Um oito negro. A carta estava apoiada de lado sobre a mesa, segura pelas mãos de uma colega de turma; hoje ausente. Mais do que ver, Ernesto, inexplicavelmente, “pré” sentira o que existia do outro lado daquela matéria…

Um oito de espadas.

Pensara tratar-se de algum estranho efeito etílico. Mas já no dia seguinte, durante o café da manhã, a ressaca apresentar-se-ia ainda mais poderosa, fazendo Ernesto passar toda a primeira metade daquele revelador domingo sentado sozinho diante da piscina, numa cadeira na varanda, brincando de embaralhar aquelas bizarras cartas esquecidas no canto da cozinha.

Todas transparentes…

E das cartas passara então a intuir os números discados nos telefones celulares dos amigos, mesmo quando virados de costas para ele. Visualizava os algarismos no mesmo ritmo de pensamento dos autores das discagens.

Já lhe surgiam de forma quase natural.

Sua brincadeira predileta tornara-se a adivinhação. Mandava os amigos, familiares, a futura noiva… Cada um sentar-se diante dele e, concentrando-se, pedia para pensarem em um número. Qualquer número…

Ernesto adivinhava.

No início, ainda restavam algumas dúvidas. Mas, seus amigos mais próximos, e principalmente sua noiva, acabaram aceitando aquele instigante fato. Ele acertava mesmo… Vez ou outra tentavam encontrar alguma falha, algum “defeito”. Sem prévio aviso, mostravam-lhe nas ruas carros desconhecidos, de ângulos pré-determinados; qualquer carro…

Ele falava os números da placa.

O jogo na televisão começava e era só o placar aparecer zerado pela primeira vez no canto da tela; qualquer jogo…

Ele predizia o saldo de gols da partida.

Rápida e faceira, Raquel — a noiva — apareceu certa ocasião com um canhoto de loteria vazio. Deixou-o, como quem não quisesse nada, em cima da mesinha de cabeceira do quarto de Ernesto, após uma intensa, voluptuosa e atípica noite de sexo.

Raquel estava com um sorriso misterioso…

Mas foi somente naquele momento, contando para os amigos sobre o histórico que o levara à decisão há pouco anunciada, que Ernesto atentou-se para o significado do primeiro número adivinhado naquela mesma mesa, um ano atrás. O primeiro presságio…

Um explícito agouro.

Um oito, invertido e negro. Tenebrosa alegoria. Genuíno símbolo de infinito. Infinitamente sombrio. Uma enfadonha profecia sobre seu futuro e inglório relacionamento com Raquel, colega de turma que empunhava aquela carta e por quem era apaixonado, desde o primeiro período. O representativo fiel de seu trágico noivado…

Oito de espadas.

Raquel por fim confirmaria aquele prognóstico, revelando sua verdadeira face. E frieza. Com oito dígitos na conta, fugiu não se sabe até hoje para onde com um ex-namorado, do tempo do colégio. Deixou para trás apenas uma negra espada fincada no coração atormentado de Ernesto, que nunca mais se utilizou do dom recebido.

Sina.

Ernesto agora buscava conhecer a essência humana. A beleza da alma. A mansidão. O atrativo e seguro caminho das virtudes. O ser antes do ter. A imensidade e onipotência do Amor. Ilimitável; eterno. Sim… Ainda procurava o infinito.

O que Ernesto queria mesmo era encontrar um oito de Copas.

* * *


 

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Desespelho

 Era estranho…

Beijava bocas sem rostos como se buscasse o antídoto para uma latente dor. Explorava corpos desprovidos de nomes e em suas toscas pilhas me perdia. Trilhava caminhos opostos, impostos; sobrepostos… Chafurdava na lama impiedosa da madrugada, mergulhando de cabeça nos bueiros, poços. Chegava a ser poético, mas insano.

Dor de amor.

Ter de passar por tudo isso, para só então começar a me perguntar: Para quê? Ter que atingir o fundo e só lá embaixo descobrir que fora eu mesma a saltar… Estar dentro de uma situação claustrofobicamente real e então perceber que na realidade fora eu mesma a me trancar ali. Era tudo tão simples. Tudo tão complexo…

Tudo tão contraditório.

O telefone tocava. Vibrava. Roía. Escandalizava… Minha cabeça girava. Sentia o gosto na boca borrada que o espelho em primeiro plano delatava, escondendo a metade do corpo tombado e exaurido sobre a cama, ali atrás… Recompensado. Entorpecido.

Eu queria que tudo fosse diferente.

Que fosse tudo diferente… Olhava-me no espelho daquela espelunca e não me encontrava do outro lado. Na verdade não sabia mais de que lado estava; qual era o lado certo… Onde estava? Quem eu era? Por que fizera aquela tatuagem horrível que a menina do espelho me mostrava? E quem eram os caras deitados na cama, ali atrás? Não…

Não sabia mais quem eu era e nem o que eu fazia.

Aliás, o que eu fazia ali…? Que lugar era aquele? O que eu havia tomado…? Eu não queria ter estado no meio de toda aquela gente. Não sabia se atendia aquele maldito telefone, ou se me escondia. Eu não queria ter estado ali! Humilhada… Usada… Eu só queria que tudo aquilo fosse diferente.

Vil.

Eu estava magra. Engraçado… Sempre quisera ser magra. Passara a adolescência inteirinha lutando contra a balança; me contendo, segurando. Sempre desejara ter um corpo assim. Mas não assim… Sabe quando a gente se olha e não acredita que seja a gente naquela foto? Era assim que eu olhava pra mim naquele espelho… Sempre quisera ter um corpo daquele. Sem nenhuma gordurinha. Mas não daquela forma. Não daquele jeito. O corpo tão sonhado…

Em meio a um pesadelo.

Não sei quanto tempo fiquei olhando para mim mesma, dentro daquela pocilga; diante daquele espelho que parecia quebrado. Aquele maldito telefone se esgoelando… Talvez o tempo necessário para que eu pudesse me reconhecer naquela imagem. Despertar. Sem a maquiagem, a máscara… Assustadoramente real. Encontrar-me. Descobrir-me. Ali, nua, durante um curto período de lucidez.

Ensandecidamente lúcida…

Eram doses pequenas no início. Passavam quase que despercebidas. Imperceptivelmente absorvidas. Depois era o efeito a passar rapidamente. Tão rápido que nem mais se fazia sentir. Não… Não estou falando sobre drogas. Também não estou afirmando que não as usasse. Mas nenhuma delas poderia sequer aproximar-se do efeito que as tais lembranças surtiam em mim. Eu repassava as cenas em minha mente… Uma a uma.

Confusa mente…

Geralmente quando acordava. Era quando a cabeça parecia estar ainda livre do cimento que a insana realidade, no final do dia, como um fardo insustentável, em minha mente incutia. E só nos dias bons isso acontecia. Pois a dor de cabeça, normalmente, já me acompanhava desde quando levantava. Assim como a ressaca, o enjoo, a tontura…

A culpa.

Poesia. Herege; mundana… Mas poesia. Eu abrindo os olhos e encontrando… Ele. Os objetos, assim como as pessoas, passando como se estivessem, todos, em câmera lenta. E m c â m e r a l e n t a. Era sempre ele… Como o vento, seus dedos acariciando meus cabelos, sua voz doce reverberando em meus ouvidos junto ao som da melhor banda de rock do mundo…

O telefone não parava de tocar.

… Salvando-me; resgatando-me daquele matinal momento perdido, onde eu não era eu. Onde o que eu fazia não era eu a fazer. Onde o que eu queria era nada mais querer… Nada além de estar ali, com ele… Nos braços dele novamente. Segura…

Salva.

Era o instante eternizado no fundo de minha mente. A fronteira final de minhas lembranças. O derradeiro território. A essência da minha alma. O meu sonho mais real. O estar sendo; tendo sido, para sempre… Perfeito. O Nirvana…

A mentira.

Brotavam então as cenas que se misturavam à realidade daquele sonho; como se tudo fosse um devaneio irreal; mesmo que irremediavelmente verdadeiro. Os flashes, sussurros, gemidos… Os corpos em cima do meu… Dançando como que enlouquecidos. Enlouquecida. O entra e sai lúdico, sentimentais espasmos cleptomaníacos. Roubando-me de mim mesma; assaltando-me, levando-me… Munidos apenas da arcaica sofreguidão.

E desespero.

Alçando um vôo imaginário chegava ao fim de mais aquela noite, em silêncio profundo. E do mundo, lá de onde saltara rumo ao meu, vinha o som do telefone que me caçava e enlaçava como a um objeto sem graça, sem vida… “Fria”, um toque me dizia. Lá do fundo… Da superfície plana e macia, a me olhar de cima; superficialmente.

O espelho.

Encarava os olhos que me encaravam e não me viam; que enxergavam apenas a imagem despontada, com extrema apatia. “Frígida?”; “Insensível?…” Como eles ousavam acusar-me enquanto eu não apontava ninguém? Eu não recusava ninguém! Irritava-me isso… Mesmo. Queria fechar os olhos novamente.

Mas eu já era refém…

Tentava sair dali; daquele emaranhado de restos, noites… Daquela fartura de carnes, guimbas, sexos… Daquele vazio compulsivo e gelado. Meu corpo é que já não aceitava mais. Meus olhos, naquele amórfico pedaço de vidro, também não brilhavam mais. Minha mente, disforme, já não me refletia mais…

Estava doente.

Física, mental e espiritualmente. A fuga, remédio ineficaz, já não me levava adiante. Não mais. Queria atirar longe aquele maldito telefone que não parava de tocar, avisando sobre o término de mais um período… Mais um pedaço vendido. Perdido. Não conseguia achar minhas roupas, nem apoio nas paredes que me cercavam. Que conspiravam, me prendiam; delatavam…

Queria era poder ir embora.

O corpo tombado, vencido; o olhar a fixar-se numa cadeira vazia. Solitária como cada um ali dentro daqueles quartos, a esperar por um colo que nunca viria. Sabia muito bem disto… O gosto amargo na boca, a azia… Eu queria muito sair dali, de qualquer jeito; simplesmente levantar e caminhar. Quebrar aquele espelho. Atravessar aquela porta. Sem rumo ou plano. Mesmo sem volta.

Eu só queria ir embora…

* * *


 

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Digressão Perigosa

Ronaldo era uma pessoa bem distraída…

No entanto, já na saída do túnel, percebeu que havia algo errado. A pista à sua frente estava completamente vazia, assim como toda a travessia feita pelo interior do imenso vão que deixava para trás.

Fixou o olhar no retrovisor do carro.

Cada segundo passado sem avistar sinal de outro veículo, à frente ou atrás do seu, reconfirmava aquela primeira impressão, responsável pela crescente e involuntária força exercida em seus músculos temporais.

Ronaldo sentiu a vista adaptar-se à claridade do ensolarado dia e, já de posse da certeza que alguma coisa estranha estava realmente acontecendo por ali, reduziu a marcha do veículo.

Ele só não sabia ainda o que era.

O incômodo vazio, atípico no trânsito de fim de tarde carioca, especialmente naquele ponto da cidade — que ligava a zona sul à uma via expressa —, levou Ronaldo a diminuir ainda mais a velocidade de seu carro; quase parando no meio da rua deserta.

Até que notou o brilho…

Trazendo ainda menos veracidade ao cenário apocalíptico no qual se encontrava, Ronaldo visualizou alguns vaga-lumes próximos ao asfalto, à frente do automóvel, como se desprovidos da informação sobre o horário local. Ou talvez confusos, devido à ausência do costumeiro fluxo de veículos…

Pirilampos diurnos.

Somente então distinguiu um carro branco de reportagem, com a logo de uma emissora de TV estampada na lataria, parado mais adiante, à esquerda da pista. Aparentemente, gravavam alguma matéria, pois Ronaldo acompanhou a corrida de um homem, carregando uma câmera de filmagem, e uma mulher, muito bem vestida, com o que parecia ser um microfone na mão. Os únicos seres-vivos avistados por aquelas bandas, além dos estranhos vaga-lumes…

Seria uma reportagem sobre este bizarro fenômeno?

Na verdade, pareciam temerosos… Ambos, câmeraman e repórter, pararam agachados ao lado do carro da emissora e, se realmente filmavam algo por ali, só poderia mesmo ser alguma coisa bem pequena sobre o asfalto.

Pequenina e perigosa.

O fato é que, ao aproximar-se mais da dupla, mantendo a baixa velocidade de seu veículo, Ronaldo pôde perceber a expressão de espanto que figurava nas feições dos dois; como se o casal sofresse um inesperado ataque por parte dos curiosos pirilampos que, em maior número agora, piscavam bem próximos da atônita dupla.

Contato visual estabelecido…

Ronaldo não conseguiu evitar o encanto recebido daquela repórter. Lindíssima. Os olhos azuis abertos ao máximo, fitando-o; revelando todos os seus segredos num instante de êxtase que parecia sem fim. Tudo em câmera lenta… O olhar fixado nele como se o desejasse mais do que a própria vida. Encarando-o sem empáfia; o hipnotizando de imediato.

Por completo.

Foi quando os dois veículos se emparelharam e, durante a eternidade que um único segundo pode conter, pela janela de seu carro, Ronaldo vislumbrou o quadro mais perfeito dentre todas as imagens que até então julgava conhecer.

Déjà vu.

Sentiu por inteiro o impacto daquele momento. Um insólito elo cuja ruptura, no instante seguinte, queimou-lhe por dentro, criando um mal-estar súbito que Ronaldo imediatamente tentou desfazer.

Inquietação…

Numa busca quase que animalesca, voltou os olhos para todos os retrovisores de seu carro, o de dentro e os de fora, procurando restabelecer o mágico contato que o fizera sentir-se a meio passo da perfeição.

Reencontrou o veículo branco pelo qual acabara de passar somente no espelho esquerdo; pequenino demais para permitir uma boa visualização daquela que fora a responsável pelo instante mais intenso de toda a sua vida. A magia daquele olhar…

Penetrante.

Profundamente alterado, Ronaldo tentou enquadrar o cândido automóvel no retrovisor central de seu carro — maior e menos indigno para aquele glorioso fim. Porém, na dolorosa busca pelo posicionamento ideal de seu corpo, que o permitisse avistar a agora já dona de sua sanidade física e mental, Ronaldo acabou deparando-se novamente com a enorme e negra boca de onde havia sido cuspido diretamente para aquele deserto.

O imenso vão.

Num calafrio, percebeu as diversas construções sobre a abismal galeria do túnel, reveladas somente então pelo espelho. Na verdade, casebres. Inúmeros. Sobrepostos; confusos. Tudo misturado e exposto. Pedaços de madeira, concreto, tijolos…

Favela.

E, do mesmo modo que antes, Ronaldo viu fulgurar, agora também dentro daquele pedaço de vidro refletor, o brilho tão característico aos supracitados insetos reluzentes… Uma verdadeira infestação de pirilampos que parecia querer tomar conta de todo o morro atrás do carro, acima da saída do túnel, repleto de pontos luminosos.

Flamejantes marcas destacavam-se na indigente paisagem sobre a meia-lua negra e soturna. Centelhas cintilantes invadiam ruelas e agrupavam-se de modo amorfo e insólito. Um endêmico ataque àquela comunidade menos favorecida. Uma epidemia de chispas na favela. Invasão insana; fulgente. Sobrenatural.

Luzes sobre a escuridão.

Guiou o carro apenas pelo instinto. Dirigiu dezenas de metros sem atentar-se para o que viesse adiante. Olhos vidrados no retrovisor central. Olhava para frente, mas pelo espelho lhe era revelado tudo o que ficara para trás…

Como se não houvesse mais futuro.

Com a razão extinta, à imagem e semelhança dos imperceptíveis cacos de vidro espalhados sobre o banco traseiro do carro, sem ainda conseguir juntar os pedaços daquele verdadeiro enigma, Ronaldo tombou sobre a direção.

Não sentia mais o peso do corpo.

Na verdade, não sentia mais nada. Nada além de saudade. Saudade daquele rosto, de feição misteriosamente angelical; de olhar reluzente e enigmático. Alaranjadas fagulhas em meio a uma imensidão azul… Ensandecidamente belos. A boca entreaberta e inverossímil, na eterna dúvida do movimento. Os lábios vermelhos… A mente divagando…

Sem som; sem tom; centrada.

O momento exato da ultrapassagem. Etéreo instante. O vento sutil a balançar os fios loiros sobre a perfeição da pele alva. A súplica daquele olhar derradeiro… Um toque sublime a percorrer toda sua espinha, num aguçado carinho… A unha feroz cravando-lhe a pele num afago algoz; a ferroada nas costas…

O delírio.

Ronaldo emergiu no interior daquele carro, já quase sem embalo. O som dos estampidos próximos e o calor de rubra intermitência foram seus últimos companheiros. Não viu a barreira de veículos perfilados mais à frente, nem as dezenas de oficiais fardados, fartamente armados, em irracional revide.

Ronaldo perdeu-se no frescor daquele rastro…

Dormiu ninado pelo tilintar metálico dos fuzis em meio ao nauseante hálito de pólvora que invadiu o automóvel, instantes antes de parar na reforçada lataria de uma das viaturas que bloqueavam o trânsito daquela importante e desolada via.

Uma verdadeira operação de guerra.

No noticiário da noite, figurou entre as vítimas fatais de mais aquele confronto urbano. Bala perdida. Uma jovem repórter relatou, emocionada, os momentos de perigo vividos por ela e seu companheiro de equipe. Ambos surpreendidos pelo intenso tiroteio ocorrido entre a polícia e os traficantes. Invasores que tentaram tomar posse dos pontos de venda de drogas daquela afamada favela.

No carro de Ronaldo foram encontrados — além das diversas perfurações de bala — pedaços de tela, pincéis, cavaletes de madeira, recipientes com tintas de inúmeras cores e uma pasta repleta de folhas de papel, contendo vários desenhos, de diferentes temáticas.

Alguns destes desenhos que estavam no interior do veículo da vítima foram mostrados na reportagem, de cunho extremamente emocional. Dentre os mesmos, destaque especial foi dado pela repórter, visivelmente alterada, a uma série de inacabados esboços, nos quais o falecido artista parecia estar trabalhando. Todos retratavam a figura de uma bela e enigmática jovem.

De lindos olhos azuis…

* * *


Brilho

 

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O Menino

janela-carro

Pela janela do carro passavam os prédios, enfileirados. Imponentes, resistentes, pacientes. Misturavam-se ao azul do imenso céu que se sobrepunha a todo o cenário em volta. Eram como mergulhadores de concreto sobre trampolins de rua, à beira de uma enorme piscina às avessas.

O garoto estava sentado no banco de trás do veículo, olhando para cima, mas parecia flutuar à frente de tudo aquilo; admirado com a sensação de primeira vez que se apoderava dele ao mergulhar naquele momento indescritível.

Deliciava-se.

A claridade daquele dia especialmente belo repetia em suas retinas as mesmas formas refletidas no vidro da janela do carro. E o resultado de toda aquela radiante maravilha, em suas variadas dimensões, era logo retido na alma do menino, explodindo em uníssono com as batidas de seu coração.

Um retumbante brado, transformado em pulsação…

Era um garoto franzino, dono de um sorriso tranquilo. Mas, suas traquinas meninas, dotadas de um brilho tão intenso que pareciam querer competir com o esplendor do astro que a tudo ali iluminava e coloria…

Estava alegre, o menino.

Alegre como o Sol. Alegre como uma criança ao acordar e ver que seu melhor sonho estava acontecendo de verdade; na realidade. Estava acordado; não estava dormindo. Não estava…

Estava vivo.

O carro seguindo pela avenida da praia… Ele mimeografando os coqueiros, a areia, o intenso azul do mar e, lá no fundo, o horizonte. O horizonte inimaginável estava ali. Bem ali, ao alcance de seus olhos. Atingia, portanto, neste instante, o inatingível ponto. O dia estava lindo…

Perfeito.

E não era só isso. Tinha mais do que a natureza e suas belezas infinitamente belas… Tinha as pessoas. Motoristas, famílias, crianças, velhinhos… Primeiro nos carros ao lado, depois os pedestres, transeuntes, pessoas no calçadão, pessoas correndo, pessoas de bicicleta; pessoas, pessoas, pessoas…

Gente.

E… Ele ali. Junto. Junto da gente. Uma paz muito grande dentro daquele automóvel. Família completa. Pai, mãe, irmã… Todos ali. Completamente novos. Completamente família, embora não ainda familiarizados com tanta alegria.

Renovados.

O Sol forte reluzia sobre a pele ávida e ainda fria do menino, após quarenta dias aprisionado naquela escola. Quarenta dias sem poder sair daquele prédio; de uma sala à outra sendo a maior distância percorrida, desde o resultado da primeira prova.

Quarentena.

Os primeiros exames foram um baque e tanto. Fora pego de surpresa, o menino. Assim como sua família, amigos, colegas… As chances de passar eram remotas. Muito remotas.

E foi então que o curso intensivo teve início.

Não fazia ideia, o menino. A menor ideia do quão séria era a sua situação. Talvez não houvesse nem chance de recuperação. Momentos muito difíceis seriam necessários. O desgaste seria intenso; proporcional a sua resistência física e mental.

Quando a médica lhe disse a longa frase, já com as três versões do exame na mão, foi trazendo todas as palavras para a frente do ponto em questão. Todas as longas horas de espera, as horas na antessala daquela emergência, foram então explicadas.

Tudo fora refeito.

Por isso as horas… E a longa frase que ainda lhe apresentaria vários personagens novos, de futura convivência diária. A sentença proferindo-se e alongando-se na mesma proporção que a certeza de que haveria realmente algo de errado no final.

Algo errado com o menino.

Leucócitos, monócitos, hematócritos, hieróglifos… Todos trazidos para a frente daquele singelo par. Um “L” e um “A”. E lá estava a resposta. Aquela era a sigla cujo significado a tudo tanto complicava…

Mas tinha cura.

E, como um mantra, a verdadeira notícia contida naquela frase, antes mesmo de seu término, ia sendo mentalmente repetida pelo menino.

Tem cura…

Ecoando por todas as partes do interior daquela sala de emergência, a poderosa palavra jorrava como sangue nas paredes, transformando-se então em esperança. A fé escrita em sangue.

No sangue do menino.

Não havia mais volta. Nem muitas opções também. E, mesmo agora, saindo pela primeira vez de sua “escola”, encarando o horizonte estendido sobre o azul do mar daquele dia todo especial, o futuro era incerto. Mas ele já era outro. E já sabia também a quem o futuro pertencia.

Ele era o agora.

Ele era o menino improvável de ontem; o impossível de antes. O talvez, quem sabe, amanhã… Ele era o hoje.

E hoje estava um dia lindo…

* * *


MeuMelhorAmigo

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Na Pista

Por trás da persiana ela olhava para fora do quarto. A luz do Sol fazia com que enxergasse tudo envolto em uma espécie de névoa. Uma aura luminosa que lhe ofuscava os olhos tanto ou mais do que a desprevenida mente.

Era Carlos quem vinha em direção à porta. Ajeitava a camisa florida por dentro do elástico da bermuda que lhe deixava os machucados dos joelhos à mostra. Quando entrou, ela reparou nas casquinhas que agora cobriam os ferimentos do rapaz, dando um tom ameno ao que poderia ter sido muito pior…

Lembrou-se do namorado rodopiando no meio da pista, com as costas tangendo o solo em um efeito idêntico ao de um pião. Tinha sido muito engraçado… Só mesmo ele para arriscar passos de hip-hop, toscos, em pleno baile de carnaval, ao som de uma antiga marchinha que se negara a perder-se no passado, da mesma forma que aquela leda lembrança…

Ela ainda se culpava pelo acidente, mesmo tendo sido um descuido de Carlos o que acabara ocasionando a queda dos dois. Se bem que fora ela quem pedira para o namorado mudar de faixa… Ele, como sempre o fazia, apenas quis brincar com sua amada, trocando de lado na pista, embora sabendo que ela havia se referido à faixa da música que escutava no discman, e não a da estrada, na volta do baile.

Sem volta…

Ela estava na garupa e, mesmo sem capacete, não sentira a batida com a cabeça no asfalto, parecendo não ter sofrido sequer um arranhão. Contudo, ao ver agora o estado em que a moto ficara, colocada sobre a caçamba de uma picape da polícia rodoviária, estacionada ali do lado de fora do quarto, ela percebia a sorte que também Carlos, exibindo apenas algumas pequenas escoriações, tivera.

A moto estava totalmente destruída…

Aqueles machucados eram como um lembrete; notas de rodapé em uma página… Neste caso, notas de joelho. Nos joelhos dele. Como que a lembrá-los do que poderia ter sido tudo aquilo. Um texto autoexplicativo…

Mas era Carlos quem gostava de procurar a explicação de tudo nos fatos. Costumava dizer que toda e qualquer pergunta já detinha, invariavelmente, a resposta dentro dela mesma. Afirmava para quem quisesse ouvir, sempre em alto e bom som, que todo fato provinha da consequência de um ato, que por sua vez era oriundo de um pensamento, que era, basicamente, produto de um desejo. E tudo estaria à mostra, disponível…

Embora não evidente.

Assim ia Carlos discorrendo sobre o que quer que fosse que, à primeira vista, se demonstrasse enigmaticamente obscuro. Gostava de solucionar problemas, descobrir coisas, mudar os paradigmas… Contudo, ela sabia que, na verdade, Carlos tinha mesmo era uma “alma de caçador”. Ele era um ávido — e incansável! — caçador de respostas.

Talvez fosse isso a passar pela cabeça dele agora. Carlos estava quieto demais; quase tenso… Quem sabe até um pouco fora da realidade, tentando explicar o inexplicável, exprimir o inexprimível, encontrar o detalhe faltante… Enquanto ela perdia-se em pensamentos não tão distantes, como a quilometragem existente entre aquele quarto de hotel de quinta e os cacos de vidro que ficaram sobre o asfalto quente da pista.

Quente e acolhedor…

E novamente o brilho invade seu semblante, como um farol a delatar uma longínqua e até então despercebida embarcação. Ofuscando agora até as lembranças através da luz que aqueles pequeninos cacos espalhados no revolto mar de sua confusa mente refletiam.

Purpurinas do baile de carnaval… Batuques ferindo gravemente o couro dos tambores, joelhos… Serpentinas vibrantes… Cor de sangue. Agora tudo misturado e exposto; espalhado por aquela estrada. Migalhas de vidro na pista… Brilho esmigalhado. Os reflexos…

O Silêncio.

Somente então repara: não havia som naquele quarto. Nem mesmo barulho vindo do lado de fora. Só o silêncio… O momento a silenciar o que o vento, sem ciência do fato, sentenciava. As árvores balançando lá fora num vai evem confuso e melancólico…

Tudo melancolicamente mudo.

Carlos puxa do bolso de sua bermuda o que sobrara do aparelho que, com a outra parte ainda a repousar no pescoço dela, completar-se-ia. Esmigalhara-se por fora… Mas, os fones que pendiam das pontas do metálico arco e tocavam a jugular da namorada, agora aumentando gradativamente a pressão naquela área, não detinham sequer um arranhão. Estavam intactos, assim como ela.

Intacta…

Intacta e aflita. Ela fita as mãos de Carlos que, após livrar-se dos restos do aparelho, segurava agora, entre cortes, arranhões e manchas de sangue, apenas o CD com os enredos das escolas de samba deste ano, comprado já na saída do baile, após muita insistência por parte dela. Ele não queria comprar. Ele não devia…

Fato.

Carlos chora. Copiosamente. Deixa-se cair por sobre os restos do discman que são então prensados entre a colcha encardida daquela cama de hotel de beira de estrada e o machucado corpo que sobre a mesma tombara, derrotado. Corpo… E alma.

Carlos estava estranho…

Não trocara uma só palavra com ela desde que ali chegara. Como se nem a tivesse visto. Como se ela não existisse; como se ele não estivesse ali. Agia friamente. Talvez a culpasse pelo acidente; talvez culpasse a si mesmo… Mas não houvera nenhuma acusação; nenhum carinho…

Nada.

Tinham as suas diferenças. Ela gostava de samba; ele de música eletrônica. Ela falava em aprender a tocar violão; ele queria comprar uma mesa de som. Um gostava de correr no calçadão; a outra se esforçava em caminhar dia sim, dois não. Ele adorava a chuva; ela desafiava o sol. Mocidade porque estava bonita na televisão; Mangueira de berço e coração… Leite quente versus leite frio; um no Engov a outra no Doril…

Ela não era de beber. Na verdade, não gostava mesmo era de cerveja. Mas, naquele baile, haviam realmente caprichado… Parecia até que os organizadores tinham feito uma pesquisa pré-carnaval, como se tivesse sido possível descobrir, já no ato da compra dos ingressos, a preferência etílica de cada comprador. Tipo um elo mental mesmo, que fosse direto ao ponto do cérebro capaz de revelar, instantaneamente, a preferência por esta ou aquela bebida.

Sim… Havia uma mesa enorme e absurdamente apinhada de copos transbordantes no baile, repletos de uma verdadeira e irresistível tentação. Uma mesa que era constantemente renovada… Que ressurgia, a cada olhadela, impávida e convidativa. Um a um, os copos vazios colocados sobre ela eram, todos, substituídos por outros, cheios. E, por mais que tentassem, eles não conseguiam dar conta… O nome da tentação?

Cuba Libre.

Uma marchinha antiga pra lá, um samba-enredo famoso pra cá, e lá iam eles para a pecaminosa mesa. Carlos, é verdade, nem era assim tão vidrado na perfeita mistura de rum, coca-cola e limão, mas fizera questão de acompanhar, durante toda aquela noite, a namorada em sua rara expedição alcoólica.

Já ela… Era fã mesmo. Profunda conhecedora e admiradora. Gostava tanto que até a história desse drinque ela fazia questão de difundir, lembrando a todos que a invenção do mesmo era atribuída aos soldados norte-americanos que ajudaram nas guerras da independência cubana — daí o nome — e que, muito provavelmente, inspiraram-se no calor dos campos de batalha para a criação da explosiva bebida.

Porém, o calor que ela sentia agora não se devia mais ao efeito da bebida ingerida em demasia naquele baile. Nem da animação das marchinhas ou do rebolar frenético das mulheres no meio da pista lotada…

Tampouco vinha de fora daquele quarto de hotel de beira de estrada. Nem da claridade que agora ultrapassava as persianas e tomava conta de tudo à sua volta, misturando-se ao crescente batuque dos tamborins que voltava a ouvir através dos fones desplugados e que, cada vez mais, pressionavam seu pescoço…

Ela sentia o calor da estrada. Do asfalto quente e acolhedor. Das serpentinas vibrantes cor de sangue se abrindo naquela pista. Do repique metálico e do chamativo brilho dos pequeninos cacos de vidro, espalhados pela imensidão daquele cruzamento, que lhe invadiam a alma ao refletirem seus próprios olhos…

De dilatadas pupilas.

* * *


Orelha_2

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Contos

A Frase

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— Ela tem ciúmes até de você!

Na época em que Duda disse esta frase, Bruna — hoje sua namorada — era apenas uma amiga. E foi com esta sentença que, sem saber, Duda alterou radicalmente a vida de Bruna.

E também o rumo de suas histórias…

Naqueles tempos, tinham lá seus respectivos relacionamentos amorosos. Duda com Marly, a garota mais sexy e desejada de todo o curso de psicologia; e Bruna tinha um caso com Augusto, professor do segundo período da faculdade, onde conheceu Duda.

Na verdade, Duda e Bruna viram-se pela primeira vez no trote e, quem diria, estariam lado a lado também na foto de formatura, trocando muito mais do que sorrisos e olhares cúmplices. Já tinham até combinado isso…

Mas, voltando no tempo novamente…

Duda e sua então namorada, Marly, não tinham o menor pudor em demonstrar, em toda sua voluptuosidade, o quanto se gostavam. E, para delírio de todos os rapazes do turno da noite, era comum ver o casal entrelaçado durante os intervalos das aulas; no pátio, lanchonete, estacionamento…

E se pegavam mesmo!

Com todo o entusiasmo e dinâmica que a fogosa juventude costuma gratuitamente oferecer como espetáculo, Duda e Marly formavam o casal mais conhecido – e comentado! – daquela conservadora instituição de ensino. Colírio e delírio para toda a rapaziada do curso.

Contudo, numa das incontáveis festas da faculdade das quais participaram, isso já no terceiro período, Duda revelou para a então amiga Bruna que, sua estonteante e desejada namorada, além de beleza, tinha de sobra também…

Ciúmes.

Pura, e nunca simplesmente, ciúme. Ciúme imensurável, incontrolável. E isso, como Bruna pôde perceber naquele desabafo, tirava Duda realmente do sério. A amiga podia ver em seus olhos a raiva que certas atitudes de Marly lhe faziam sentir.

O pior é que, na cabeça de qualquer um, deveria ser Duda a sentir ciúme de sua cobiçada namorada, pois até mesmo os professores da faculdade — e aqui se encaixava também Augusto, o tal caso de Bruna — perdiam o controle sobre o olhar e as palavras ao verem Marly passar.

Às vezes até o controle sobre a saliva…

Mas, isso Bruna sabia reconhecer também… Marly era mesmo maravilhosa. Linda. Toda completa. Se fosse um carro, seria uma Ferrari; vermelha. Com todos os opcionais.

No entanto, nada mais deprimente do que ver um bando de marmanjos, a maioria casada e com filhos, ou filhas, babando na porta da sala dos professores quando Marly passava…

Em contrapartida, se havia alguém mais seguro, maduro e bem resolvido do que Duda ali naquela faculdade, Bruna não tinha ainda conhecido ou ouvido falar. Duda detinha todas estas qualidades e ainda muitas outras… Formava um conjunto de atributos que, em sua totalidade, causavam imensa admiração por parte de sua, ainda então, amiga.

Ter conhecido Duda foi, sem sombra de dúvida, uma das melhores coisas que haviam acontecido para Bruna naquele período importante e confuso de transição para a vida realmente adulta…

Era com Duda que Bruna se abria e sempre ficava impressionada com a sabedoria e sensibilidade contidas nos conselhos que recebia em troca.

Sempre em troca…

Mas então veio a frase. A tal frase que mudou tudo. A frase que pegou Bruna de surpresa; que a acertou em cheio como uma bolada na testa. Marly tinha ciúmes dela…

Ela; Bruna!

Não que se achasse feia; estava longe disso. Mas saber que a musa da faculdade, a deusa suprema, o ícone máximo da luxúria, sentia ciúmes dela… Nossa! Isso era mais do que um banho de ofurô em seu ego.

Foi estranho…

Aquilo mexeu de verdade com Bruna. Fato que uma semana após aquela revelação, Bruna e Duda trocaram o primeiro beijo. Proibido, secreto, curioso… Exatamente como um beijo deve ser.

E o incidente despertou dentro de Bruna sentimentos e desejos que nunca sequer cogitou existirem. Estava transtornada. Irreconhecível. Não conseguia mais parar. Queria sempre mais e mais e não compreendia a fonte de tudo aquilo…

Bruna estava verdadeiramente apaixonada.

Irradiando alegria, terminou com apenas duas palavras o complicado relacionamento que mantinha há tempos com o inconformado professor, tornando então público todo aquele novo e indescritível sentimento que surpreendentemente apoderara-se dela e a fizera sentir-se, finalmente, completa.

Completamente feliz.

A parte mais difícil para Bruna foi, sem sombra de dúvida, após quatro anos de intenso aprendizado, apresentar o motivo de toda aquela plenitude aos seus pais, que vieram do interior de Minas especialmente para a formatura da filha e, finalmente, conhecerem Maria Eduarda…

Seu grande amor.

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  Lolita

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